Eles Vivem

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os ricos

Fitzgerald: The rich are different from you and me.

Hemingway: Yes, they have more money.

Deixaram de se esconder. Também têm Facebook – como não poderiam ter a maior rede de auto-promoção, revisionismo e engate? Num mundo antigo, ficavam-se pelas revistas do social, empilhadas em consultórios médicos, só à vista do mais entediado dos pacientes. Apareciam nos programas de sábado de manhã, quando a populaça estava verdadeiramente mais ocupada a ir ao supermercado ou a fazer o almoço para os miúdos. Andavam por aí, mas era como se não andassem.

Os ricos nasceram com o cu virado para a lua, os pobres foram feitos pelo olho da rua

malMORTO, “Os Ricos”

Fazíamos de conta que não existiam. Eram apenas nobreza falida. Vaidosos que se passeavam pelas festas no Estoril e Quinta do Lago. A bem da verdade, naquela altura em Lisboa – e falo por mim – ninguém olhava para cima, para o topo dos hotéis, a que eles agora chamam de rooftops. Nada se passava no topo do hotel. O céu de Lisboa era sempre aquele azul impossível, entediante.

Mas eles lá estavam. Existiam. Os proprietários de apartamentos de luxo em Lisboa, vivendas em Cascais ou palacetes devolutos eram, no entanto e para o cidadão comum, entidades mais que vagas. À excepção de uns betinhos a férias na Falésia que preferiam a Caras ao Brett Easton Ellis, ninguém tinha grande interesse em saber quem eram – sequer lembrar que existiam. Nome compostos, brazonados ou de ascendência internacional, perdidos em legendas de fotografias de revista de mexericos, apenas isso.

Que se lixe, eram os noventa e o início dos 2000. Havia dinheiro no bolso e não muitas opções de o gastar. Tirava-se o curso (ou não), ia-se de viagem de finalistas, trabalhava-se, comprava-se casa, carro, jantava-se com os amigos (os restaurantes eram quasde todos iguais, os bifinhos com cogumelos eram quase todos iguais, os doces-da-casa eram todos da mesma casa), bebia-se uns copos, casava-se e tinha-se filhos.

Depois deu merda. Vieram os vôos low-cost, o Facebook, o Instagram e o resto. Por fim, a praga dos restaurantes gourmet e essa coisa terrível da uber-patética-cultura das “experiências” (queres experiência? Experimenta ser assaltado num bordel no estrangeiro às duas da manhã para veres o que é a bela da experiência). Por fim, a crise. A emigração dos filhos (ou dos próprios). Os escândalos de corrupção, à vista de todos.

Finalmente, os pobres – aqueles que o tal ministro nórdico disse ao Otelo Saraiva de Carvalho que queria acabar com – começaram a aperceber-se que continuavam pobres. Eventualmente, até mais pobres que as gerações anteriores.

Queriam morar em Lisboa? Eles que fossem para Santo António do Raio-que-o-parta, que Lisboa é só para cima de mil e duzentos de renda ou 200K de empréstimo. No máximo, pagas menos e dão-te o Tejo por uma fresta e um telescópio.

Queriam dar uso ao cursinho do IADE? Eles que fuçassem na porcaria do Call Center, porque até o Vhils tem de pintar paredes para viver. Com sorte, pedem-lhes para aparecer nas férias do falso-recibo verde, com promessa de um estágio de seis meses não remunerado, no ano de dois mil e um dia destes.

Deprimidos, desanimados, adormecidos por um emprego sem futuro, os pobres lá se entretinham a gastar uns cobres nos restaurantes gourme dos ricos, enquanto poupavam para finalmente sair de casa dos pais, rumo a um quarto mínimo perto do Call Center, pela módica quantia da prestação de uma casa na parvónia.

Pelo meio, espiolhavam a vida do vizinho, contabilizavam likes no Instagram e rompiam relações sem futuro, sempre em busca do príncipe ou princesa desencantados algures num bar no Cais do Sodré ou num festival de música, que os tirasse daquela vida de zombie e lhes desse uma existência mais ou menos digna – leia-se, com a perspectiva de um certo futuro.

Sem vergonha, os ricos, os tais dos nomes compostos, apelidos estrangeiros ou famílias brazonadas, quarenta anos depois da troca de cigarros entre facções opostas no Carmo, começaram a sair das tocas: um posto numa grande sociedade de advogados aqui, um cargo na Universidade a fazer não sei bem o quê ali, uma direcção de um organismo público acolá… já se sabia, afinal e graças ao Facebook e Linkedin, o que faziam os tais ricos para serem ricos.

Uns tantos não resistiram mesmo ao fascínio da wikipédia e lá meteram o rol de cruzamentos entre primos brazonados que os acabou por parir. “Afinal o não sei quantos do Partido Tal era descendente do Vasco da Gama”; “Ah o artista coiso e não sei quê é duque não sei de que mais”; “o não sei coiso era afilhado do Salazar”; e por aí em diante.

Assustados com tanta informação à disposição do público (por exemplo, eu quando quero mostrar a alguém como anda a ser enrabado, encaminho-o sempre para o site BASE.gov.pt, uma delícia) os sem vergonha voltaram a pegar naquela coisa do mérito e do trabalho (“muito trabalho, muito trabalhinho”) para mostrar aos preguiçosos incompetentes dos pobres porque é que não tinham uma melhor vida.

Os dos nomes compostos e apelidos estrangeiros que se reproduzem ali para os lados da linha “estão onde estão” porque se esforçam! Percebes, ó pacóvio?

A lenga-lenga era a mesma de sempre (agora reforçada): “Tu vê lá que o fulano tal descendente do Conde da Porcalhota até trabalhou no MacDonalds do Restelo quando estava na Faculdade e tu, meu merdas, nem sequer queres bulir no Lidl porque tens medo de sujar essas mãozinhas de designer desempregado, ó Silva”; “Os Be(r)nardos e F(r)anciscas, lourinhos de olhos azúis que andaram no Colégio de São Lebesborn do Estoril são empreendedores e montaram a sua própria empresa, viste?” É claro que o primeiro cliente deles foi um grande instituto público ou um grupo económico do grande amigo do tio que o salvou numa noite de bebedeira no Grand Hotel de Cabinda, em plena Guerra Colonial enquanto o tosco do teu pai se borrava na mata. Mas isso omite-se sempre, a bem do bom do mérito.

Sem vergonha dos seus igualmente trabalhadores, empreendedores e cheios de mérito avós, os ricos vão continuar a fazer a sua vidinha. E fazem eles muito bem. Que seriamos de nós sem eles? Quem nos dava emprego (tão benevolentes que são)? Que seríamos de nós sem eles para nos mostrar como se deve vestir, como nos devemos comportar, que sítios devemos frequentar, que exposições, livros, filmes, festivais devemos consumir, até como nos devemos divertir?

Já os pobres, os pobres, coitados, vão continuar a ser pobres. Não tanto pela falta de dinheiro, de chá, ou de trabalho (e mérito), mas por serem incapazes de dizer simplesmente “basta” – tão entretidos que andam a sobreviver e, nas raras frestas que o quotidiano permite, a imitar os ricos como podem.

Enquanto isso, os outros, esses vivem. Eles vivem. E vivem bem.

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About Hugo Costa

Copywriter, letrista, ex-guitarrista de Líderes da Nova Mensagem e dR. estranhoamor. Co-autor do romance A Corporação Invisível.

20. Novembro 2017 by Hugo Costa
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