Narrativas

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A idade tem destes feitos: metabolismo lento, selecção mais criteriosa, menor contemplação do futuro, e por inerência do passado, e um punhado de verdades mais ou menos verdadeiras, achadas da experiência e maturação desse negócio que é existir.

Algumas verdades são meros canivetes suíços de marca branca, como por exemplo, “não vale a pena discutir com mulheres”. Outras, monumentos à memória, sinais de trânsito às gerações vindouras, que no entanto apenas os tomarão como meros elementos da paisagem – “o tempo passa a correr”, “ouve os mais velhos”. Outras ainda, pequenas notas de rodapé só ao alcance de leitores mais interessados em devorar o livro social.

É um destes últimos tipos de verdades que tenho vindo a ponderar há algum tempo, por via do trabalho mercenário, mas também da necessidade de ver o formato final do puzzle, ainda que nunca o venha a completar em vida.

Arrisco assim a tomar como verdade esta pequena observação: cada pessoa constrói a sua própria narrativa. Com ela justifica-se e aos seus actos, aos seus acasos mas também às suas vilanias. As narrativas são, no fundo, longos exercícios de construção de uma mundivisão onde o narrador sempre acaba por ser o herói.

Os meses passados foram férteis em biografias. A narrativa é uma espécie de autobiografia quase sempre oral, mas muitas vezes editada em formato currículum profissional, mural de social media, pequena nota em site de empresa ou badana.

Algumas narrativas são como aqueles livros onde muita coisa parece acontecer, mas nada de verdadeiramente importante se passa. Ainda assim, algo se deve passar com tanto acontecimento.

Algumas narrativas são como músicas pop com orquestras sinfónicas a tentar mascarar uma pobre progressão harmónica, indistinta de uma qualquer composição de banda de garagem. Se tem maestro deve ser música erudita.

Algumas narrativas são exercícios intrincados de investigação policial com mais incógnitas que certezas. Mas, não existindo prova, foi tudo um complô contra “um grande homem” (ou mulher).

Em todas as narrativas nunca existe espaço para a sorte ou o acaso – o acaso é sempre fruto de muito trabalho.

Em todas as narrativas a infância é sempre mencionada en passant. E a genética prevalece sempre sobre o material de que são feitos os berços. As heranças recebem-se quase sempre em forma de traços de carácter (resiliência, determinação, coragem), nunca em forma de cheque, apelido composto ou educação privilegiada.

Em todas as narrativas omitem-se – porque nunca são veradeiramente importantes – pequenos factos que sempre fazem muita diferença. Pequenos factos que não caibam no bolo genérico de conceitos latos (e vagos) como trabalho, dedicação, paixão, profissionalismo, empreendorismo são sempre de somenos importância. Pequenos factos como a filiação partidária, a cunha, o favorecimento, a recompensa, o silêncio, a traição, ou mesmo o crime.

Narrativas são folhetos de literatura fácil, eitura leve para dias de praia. No fundo, pequenas odes aos seus heróis-narradores.

Narrativas são pura propaganda-lixo. McDonalds da História. Come quem quer. Eu dispenso.

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About Hugo Costa

Copywriter, letrista, ex-guitarrista de Líderes da Nova Mensagem e dR. estranhoamor. Co-autor do romance A Corporação Invisível.

25. Abril 2017 by Hugo Costa
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