The Man in The High Castle e o seu tempo (o nosso)

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Se bem que com algumas falhas narrativas e personagens um pouco bi-dimensionais, The Man in the High Castle é uma boa série. Gostei de ver a primeira temporada. Vi de uma assentada, ou como aquela gente que escreve para as revistas em Portugal agora diz, fiz uma bingewatch da coisa.

Fiquei, por isto, contente de poder começar agora a ver a segunda temporada, embora como escrevi aqui me irrite solenemente essa coisa das temporadas. Já vi 3 episódios e, mais do que a curiosidade até onde vai levar a narrativa fiquei contente por regressar à pertinência da mesma.

De facto, mais do que nunca vale reflectir sobre ditaduras e conformismos. Não por causa de Trumps e afins – como o meu leitor de esquerda gostaria ou imaginaria – mas por nós, aquilo em que nos tornámos ou nos estamos a tornar.

Falando de Portugal eu ainda não percebi se foi a esquerda que assaltou a direita se a direita assaltou a esquerda. Sei que ambos os campos ideológicos são propensos a ditaduras. E as ditaduras são todas iguais: uma merda. Não só porque fazem potencialmente vítimas mortais, mas porque tendem a querer impor uma maneira de pensar e ver o mundo. E, com isso, destroem também vidas, muito antes de as aniquilar por completo.

Não vejo no futuro próximo uma ditadura ocidental a olho nu aniquilando fisicamente pessoas. Mas, ei, posso estar enganado. Vejo no entanto uma ditadura mais que estabelecida aniquilando o pensamento, a originalidade e o não-conformismo.

Se não, vejamos.

Hoje em dia é impossível criticar algo ou alguém sem ser rotulado de invejoso.

Hoje em dia, um pessimista, realista ou desconfiado, é um depressivo. Mais, é um desmancha prazeres. Como se diz agora, uma pessoa tóxica.

Hoje em dia, as Relações Públicas tornaram-se Propaganda, a Propaganda virou Extremismo e a Publicidade… bem, a Publicidade como diria o outro continua aquela coisa de valor igual ou menor que zero.

Hoje em dia, é impossível ser mais cheínho sem ser rotulado de preguiçoso. É impossível ser politicamente incorrecto sem ser logo rotulado. É impossível ter dúvidas ou ser desconfiado sem ser um ignorante – é impressão minha ou existia uma coisa chamada curiosidade científica?

Martin Amis nesta entrevista ao Observador fala de um “contra-iluminismo” que parece estar a acontecer.  E eu não digo que não. Resta apenas perceber porque está a acontecer. As coisas (boas e más) não sucedem apenas por capricho da História.

Arrisco: está a contecer porque a ditadura do gosto, do politicamente correcto, da gentrificação, do entusiasmo e do conformismo, excluiu – óbvio – todos aqueles que não são loirinhos, nascidos em boas famílias, formados numa boa universidade, auferindo um determinado salário, em boa forma física e não-fumadores. Claro que isto é agora uma analogia com as teorias racialistas da história que inspiraram movimentos como o que inspirou a trama de The Man in High Castle. Cai no exagero para estabelecer um ponto de vista. Bem, exagero? Já não sei.

Uma coisa é certa. Lentamente, estamo-nos a tornar nos nossos próprios polícias. E se isto não caminha para uma ditadura, caminha de certeza para uma sociedade muito pouco interessante e aborrecida. Sem originalidade (bem melhor que criatividade), sem paixão (bem melhor que entusiasmo), sem inconformismo (muito melhor que mera oposição).

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About Hugo Costa

Copywriter, letrista, ex-guitarrista de Líderes da Nova Mensagem e dR. estranhoamor. Co-autor do romance A Corporação Invisível.

20. Dezembro 2016 by Hugo Costa
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